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Novidades - "Última Canção"
40 anos de um grande clássico da música romântica.

No final de 1967, desembarcava no Rio de Janeiro o jovem compositor Carlos Roberto Nascimento. Natural do município mineiro de Governador Valadares, este sonhava em conhecer pessoalmente o cantor Paulo Sérgio. Decerto que, naquela oportunidade, Carlos Roberto tinha poucas referências sobre o artista, que ainda debutava no cenário musical através da canção “Benzinho”, uma versão de Maurileno Rodrigues para a balada “Dear Someone”, composta pelo músico americano Cy Coben.

Aos 23 anos, Paulo Sérgio já gozava de grande prestígio particularmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde já havia vencido os mais importantes concursos de calouros da época. Um ano antes, já participara do filme “Na Onda do Iê-IêIê”, uma chanchada musical dirigida por Aurélio Teixeira e estrelada por alguns dos mais representativos ícones da Jovem Guarda. No entanto, somente com o lançamento do primeiro compacto, que continha as canções “Benzinho” e “Lagartinha”, Paulo Sérgio começava a sedimentar o seu sucesso radiofônico em âmbito nacional. Lançado pela “MP Gaetani”, um projeto experimental de gravadora idealizado pelo empresário Renato Gaetani, o compacto de estréia de Paulo Sérgio foi gravado no estúdio de propriedade do compositor e produtor musical Rossini Pinto.

A inclusão do rock n’ roll “Lagartinha” no “Lado B” do compacto foi uma imposição do próprio Rossini, co-autor da faixa, como contrapartida ao seu propósito de ter “subsidiado” os custos de gravação. Sem contar com uma estratégia de divulgação relevante, “Benzinho” foi regularmente executada nas emissoras de rádio das principais capitais do país. Porém, nem de longe representou a sublimação de Paulo Sérgio ao patamar de novo ídolo da juventude brasileira. Tal posto seria alcançado pelo cantor poucos meses depois, com o lançamento de uma outra sugestiva canção.

Por meio do empresário Renato Gaetani, Carlos Roberto foi enfim apresentado a Paulo Sérgio. A priori, munido de um violão, manifestou a intenção de mostrar ao cantor algumas músicas que havia composto. Uma destas, concebida quando o compositor tinha apenas 16 anos, despertou de imediato o “feeling” musical de Paulo Sérgio. Sua letra revelava a profunda amargura de um certo compositor diante de uma desilusão amorosa. Contudo, a despeito de todo o sofrimento que carregava no íntimo, o compositor-personagem ainda encontrara forças para dedicar à amada uma última canção.

Arrebatado, Paulo Sérgio logo decidiu que aquela música (que muito sugestivamente trazia o título de “Última Canção”) teria de ser registrada em disco, na medida em que se coadunava perfeitamente com a proposta musical que visava desenvolver. No período em que ainda se apresentava como calouro, o seu repertório básico era composto invariavelmente por canções que expressavam a dor e a angústia diante de uma decepção amorosa. Sendo assim, tinha, dentre os seus compositores prediletos, Evaldo Gouveia, Jair Amorim e Adelino Moreira, considerados “decanos” do estilo musical que se convencionou designar de “dor de cotovelo”.

No início de 1968, Paulo Sérgio lançava o seu segundo compacto, o qual trazia as faixas “Última Canção” (Lado A) e “Sorri, Meu Bem” (Lado B). Alavancado pelo sucesso meteórico da balada composta por Carlos Roberto, o ‘single’ atingiu a importante vendagem de 60 mil cópias em apenas três semanas, bastante superlativa para os padrões da época. Ademais, alçou o seu intérprete à condição de ídolo nacional. Sucesso que se refletia por meio das inúmeras capas e matérias de revistas que apontavam Paulo Sérgio como a maior revelação da música romântica nos últimos tempos.

Porém, a semelhança do seu timbre vocal com o do cantor Roberto Carlos (que até então se mantivera confortavelmente na posição de maior vendedor de discos do país e de ídolo máximo da música brasileira) tornou-se um combustível fértil para que os críticos o tachassem de “imitador” e questionassem a autenticidade da sua proposta musical. Em meio ao polêmico debate formado em torno desta acusação, o apresentador Chacrinha encampou a defesa de Paulo Sérgio, inflamando ainda mais a contenda ao sugerir a derrocada artística de Roberto Carlos. Por seu turno, o apresentador Sílvio Santos relativizou o fato, sustentando que, para a almejada renovação da música popular, seria benéfico o surgimento de novos valores, ainda que, a princípio, estes artistas estreantes buscassem como referência a obra dos seus antecessores.

Indiferente ao debate alimentado pela mídia, que parecia não encontrar eco junto à opinião pública, os fãs aguardavam ansiosamente o lançamento do primeiro LP de Paulo Sérgio. Distribuído pela gravadora Caravelle (surgida a partir da etiqueta MP Gaetani, da qual Paulo Sérgio passara a constituir uma participação societária), o álbum “Paulo Sérgio - Volume 01” (1968), além do incontestável sucesso “Última Canção”, emplacou uma coleção de grandes hits: “No dia em que parti”, “Para o diabo os conselhos de vocês”, “Sorri, meu bem”, “Quando a saudade apertar” e “Não me trate como um cão”. Vale salientar que, numa enquete realizada pela “Revista de Domingo” (suplemento do “Jornal do Brasil”, do Rio de Janeiro-RJ) no ano de 2005, com vistas a se averiguar os 10 discos mais importantes da história da música brasileira, particularmente quanto ao critério de faixas que obtiveram reconhecido sucesso radiofônico, independente da época ou do estilo musical, o primeiro LP de Paulo Sérgio auferiu a honrosa 4ª posição. Ainda no ano de 1968, Paulo Sérgio lançaria o seu segundo LP (“Volume 02”), outro grande sucesso de vendas.

Em contraponto, ciente do desafio que o surgimento do novo fenômeno da música jovem lhe representava, a gravadora CBS lançaria em seguida o álbum “O Inimitável”, um disco inspirado onde Roberto Carlos abandonava as referências “jovemguardistas” e flertava com o soul e o funk norte-americanos. Todavia, a importância histórica de “O Inimitável”, álbum que veio delinear uma fase de transição na carreira musical de Roberto Carlos, parece ter sido maculada em virtude da infeliz escolha do seu título, uma mal engendrada estratégia de marketing sugerida pelos executivos da gravadora, com o intuito de salvaguardar comercialmente o seu mais importante artista. Contudo, apesar das comparações e do clima de antagonismo criado pela imprensa, Paulo Sérgio e Roberto Carlos construíram ao longo dos anos trajetórias díspares e bem definidas.

Além do prestígio, do reconhecimento e do progresso material, o sucesso de “Última Canção” selou uma amizade fraternal entre Paulo Sérgio e Carlos Roberto, que se estenderia até a prematura morte do cantor. Em contrapartida, foi responsável pelo surgimento de uma profícua parceria musical, responsável por alguns dos grandes clássicos do cancioneiro popular. Embora continuasse a residir em Governador Valadares-MG, Carlos Roberto (ou “Carlinhos”, conforme Paulo Sérgio carinhosamente o chamava) visitava o cantor com freqüência, que no início dos anos 70 já havia se radicado em São Paulo-SP.

Nessas oportunidades, hospedava-se na própria residência de Paulo Sérgio, muitas vezes lá permanecendo por várias semanas. “Arranhando” os violões e testando acordes por horas a fio, construíam melodias e letras que aos poucos iam se transformando em canções de inegável apelo popular, mais tarde imortalizadas pela interpretação marcante do cantor. No entanto, este processo não era conduzido de forma sistematizada, de modo que as músicas fossem concebidas a partir de uma estrutura lógica. Ainda que os temas das canções produzidas pela dupla denotassem um certo caráter confessional, como se por meio destas visassem exteriorizar as “agruras” cotidianas que vivenciavam, os autores quase sempre inspiravam-se em meras alegorias de essência impessoal, mas que poderiam assumir uma natureza crível. Por este motivo, tocavam profundamente na sensibilidade do público, embora não se redessem a concessões ou usassem o retorno comercial como parâmetro.

A partir de 1974, Carlos Roberto e Paulo Sérgio passariam a assinar os créditos de algumas canções com os respectivos pseudônimos de Gil Carla e Rafa. Período este em que a parceria musical demonstrou-se ainda mais produtiva, sendo responsável pela grande maioria das canções registradas nos discos posteriores. Dentre outros grandes sucessos concebidos pela dupla, destacam-se “Minhas Qualidades, Meus Defeitos”, “Quero Ver Você Feliz”, “Eu Te Amo, Eu Te Venero” e “Você Pode Me Perder”. Porém, “Última Canção” marcou indelevelmente a breve trajetória musical de Paulo Sérgio. Interpretando-a, ele costumava se despedir do público em suas apresentações.

No momento em que Paulo Sérgio era sepultado, milhares de pessoas presentes no Cemitério do Caju homenagearam este grande ídolo entoando sua inesquecível “Última Canção”:

Esta é a última canção que eu faço para você
Já cansei de viver iludido só pensando em você
Se amanhã você me encontrar
De braços dados com outro alguém
Faça de conta que para você não sou ninguém
Mas você deve sempre lembrar que já me fez chorar
E que a chance que você perdeu nunca mais vou lhe dar
E as canções tão lindas de amor que eu fiz ao luar para você
Confesso iguais àquelas não mais ouvirá
E amanhã sei que esta canção você ouvirá no rádio a tocar
Lembrará que seu orgulho maldito já me fez chorar por muito lhe amar
Peço não chore, mas sinta por dentro a dor do amor
E então você verá o valor que tem o amor
E muito vai chorar ao lembrar do que passou





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